A agricultura familiar tem um papel fundamental no mundo rural, do ponto vista económico, ambiental, social e cultural (FAO, 2014). Estes sistemas de produção baseiam-se em explorações de pequena dimensão, geridas por uma família que depende essencialmente de mão-de-obra familiar não assalariada e cujo saber se transmite de geração em geração.

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Quase 90% das explorações agrícolas no mundo são de agricultura familiar, apresentam pequena dimensão (mais de 475 milhões de explorações têm menos de 2 hectares), produzem cerca de 70% dos alimentos consumidos no mundo e garantem o sustento de 40% das famílias do mundo (FAO, 2014; Lowder et al., 2014).

Em Portugal, o setor agrícola é alicerçado, em grande parte, em explorações familiares (96% das 280 mil explorações existentes no Continente). Utilizam predominantemente mão-de-obra familiar, ocupam 67% da Superfície Agrícola Utilizada do Continente, representam 38% da população residente em meio rural e 25% do emprego regional (INE, 2011).

Por todo o mundo, estes agricultores constituem uma população envelhecida – 75% tem mais de 65 anos – e com baixos níveis de formação escolar e profissional – 80% adquiriu o conhecimento através da experiência prática e da transmissão de conhecimentos entre familiares, vizinhos e amigos (FAO, 2014).

O sucesso das explorações de agricultura familiar pode passar pela adoção de modos de produção como a agricultura biológica, assente em princípios como alimentar o solo, otimizar os ciclos de nutrientes através da gestão dos animais e plantas no espaço e tempo ou manter relações de proximidade com o mercado, deforma a garantir qualidade dos produtos e a assegurar a melhoria dos rendimentos das famílias. São disso exemplo inúmeros casos de sucesso centrados no estabelecimento de pontes entre agricultura familiar e agricultura biológica, integrando os princípios de agricultura biológica na lógica de produção e contribuindo para a sua melhoria técnica e económica (Auerbach et al., 2013; von Dach et al., 2013).

A agricultura familiar, pelas suas caraterísticas próprias, assume, de forma mais ou menos declarada, os princípios que norteiam a agricultura biológica: princípio da saúde, da ecologia, da justiça e da precaução (FAO, 2014; IFOAM, 2016).

A abordagem a estes modos de produção e aos conceitos associados levantam questões complexas que importa operacionalizar. Por exemplo, quais são as práticas agrícolas adotadas pelos agricultores familiares que têm impactos negativos no ambiente e na saúde humana? Que características demográficas e sociais atuam como promotoras ou inibidores da adoção da agricultura biológica? Que abordagens funcionam com este tipo de comunidades face à adoção de inovação?

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